Caosmose Musical

Kali C.

 

 

 

 

Valéria Kali (foto de Gustavo Stephan)

Aproxima-se de mim este Kali C.. C de cantora. C de compositora. Sede de compor e cantar. Kali Coragem, com a cara e a coragem. Numa canção, eu e Suely Mesquita, incomum parceria comum, dizemos que aos 36 anos, toda mulher vira Garbo. Contudo, não é possível ser tão genérica, nem mesmo no que concerne ao gênero feminino. Nem toda mulher vira Garbo. Porém, Kali virou. Sem sombra de dúvida, aliás, entre sombras e dúvidas, ela é dotada do fator Garbo. Does she want to be alone? Don´t know. 0 certo é que ela se esconde, ao mesmo tempo que se descortina, atrás da treliça, como uma escritora do século XIX, que chega ao século XXI, no qual a ordem dos números, não altera os fatores, apenas o produto.

De uma fresta de sua janela, Kali observa o mundo com uma luneta interna, melhor, um microscópio interior. Entre afiadas e afinadas lâminas, seus seres minúsculos crescem, ora para narrar a morte, ora para celebrar a vida, ora para denunciar um segredo por partes. Nunca inteiramente revelado. Uma fotografia na penumbra, ela canta. Um film noir. Nouvelle Vague. Greta Garbo. Porém Kali não é cinema mudo. Talvez lacônico. Mas Kali fala. Sua voz é uma escrita própria. Neorrealismo mágico, que concentra no prosaico gesto de roer as unhas um mistério tão insondável quanto existir. Mistério é o que une o garbo de Kali ao de Clarice. E como Garbo e Clarice, Kali nasceu clássica. Um clássico do cinema. Da literatura. Da canção. Há alguns anos, tive prazer semelhante ao conhecer outra compositora, esta que é nossa parceira: Suely. Só posso esperar que o mundo experimente prazer semelhante. 0 mundo que Kali observa de sua janela discreta. Que ele a conheça em Cinemascope. Sorte do mundo.

Quanto a ela, será sempre dona de um mistério que ninguém desvendará.

Mathilda Kóvak

 

Letras:

corro demais

a força

minha cara

Músicas:

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