Literatura popular e restauraçom lingüística na Galiza.  

Literatura popular e restauraçom lingüística na Galiza. Umha aproximaçom à obra de Saco e Arce

Maurício CASTRO LÔPEZ
(Ferrol)


 A literatura popular tem sido freqüentemente desprezada desde certo academicismo literário e lingüístico que nom raro cai no erro de aplicar a esse género os padrons críticos da criaçom literária dita "culta". Nom é a nossa principal intençom rebater posturas como a citada, que transparecem em qualquer país um classismo cultural que recusa o génio artístico anónimo das classes populares, e que em contextos como o galego implica a falta de reconhecimento para o ámbito principal --se nom único-- em que a nossa cultura sobreviveu durante séculos, ao termos vedado o cultivo literário e artístico em geral na nossa língua em ámbitos formais.

Mas, para além do interesse literário que sem dúvida tenhem, os textos de origem popular que conservamos em recolhas como a de Saco e Arce, ou que hoje mesmo vivem nas provavelmente últimas geraçons cultivadoras espontáneas desta arte desde o galego, tenhem o interesse acrescentado de abrir-nos as portas ao mundo etnográfico e mítico da nossa naçom. Eis outro poderoso motivo para dignificarmos a literatura popular e o seu estudo de ópticas tam variadas como as apontadas ou a que aqui nos ocupa. Com efeito, no presente trabalho, sem grandes pretensons, tentaremos verificar o enorme valor do estudo lingüístico das composiçons populares através dos textos recolhidos no século XIX por J. A. Saco e Arce, sob o título de Literatura Popular de Galicia (1).

Trata-se de um conjunto terminado em 1881, ano em que morre o seu autor. Este facto paralisa a publicaçom prevista para esse mesmo ano. Diferentes vicissitudes relegárom a obra durante mais de um século até que viu por fim a luz em Março de 1986, a iniciativa de J. L. Saco Cid. O rigor formal do autor, crítico já no seu tempo com o desleixo lingüístico dos poetas coetáneos, fai-nos confiar na sua fidelidade às achegas dos informantes. Nom esqueçamos, aliás, que estamos ante o primeiro autor de umha gramática galega com pretensons, embora continue lastrada polo ponto de partida e referência contínua ao espanhol do autor. De resto, é nessa língua que escreve essa obra. Umha Gramática Gallega para a qual partiu precisamente e quase em exclusiva das suas recolhas etnolingüísticas, se exceptuarmos o recurso à autoridade de Sarmento, e que nalguns aspectos resulta mais avançada do que outras muito posteriores.

Hoje, à vista dos avanços --e as carências-- dos estudos dialectológicos na nossa terra, textos como os desta Literatura Popular de Galicia de Saco e Arce tomam um novo valor ante o reducionismo ensaiado polas instituiçons oficiais a respeito do que é "galego" e o quê é que é "o galego". Com efeito, a acrítica fotografia sincrónica leva à formulaçom de um diassistema galego que parece carecer de registos, e a umha mutilaçom de recursos "nom recolhidos", etiquetados como "lusismos", "arcaísmos", etc. a partir desse ponto de partida empobrecedor e cheio de preconceitos.

Partindo dessa definiçom do galego como "o que a gente fala", num contexto de degradaçom contínua pola presença do espanhol como língua A (facto sistematicamente esquecido nos estudos a que fazemos referência), chega-se a descartar formas galegas porque "ninguém as usa".

Daí que a literatura popular seja fonte de estudo diacrónico --além de sincrónico-- de primeira ordem e instrumento auxiliar para a determinaçom do carácter do galego. Nom só porque conserve formas oficialmente "nom galegas", mas porque é prova documental do processo de substituiçom lingüística que na Galiza se verifica desde há bem séculos. Estamo-nos a referir à presença num mesmo texto da forma galega e a variante hibridada com a espanhola, ou directamente esta. Ou à manutençom doutras formas plenamente galegas que na fala já fôrom substituídas, graças ao carácter de cliché de certas coplas ou refráns.

Esta aproximaçom à obra de Saco como fonte de estudo lingüístico pretende apenas chamar a atençom sobre a riqueza destes textos e lembrar que hoje ainda subsistem muitos deles na boca das pessoas de certa idade no nosso mundo rural, como mostramos no final. Por quê os partidários do exclusivismo dialectológico na recuperaçom do corpus do galego nom levam em conta semelhante campo de estudo?

Dividimos o estudo lingüístico das composiçons em galego-português da Literatura Popular de Galicia de Saco e Arce numha parte orto-fonética, atinente aos critérios do autor nas convençons adoptadas para a representaçom da oralidade; umha segunda em que repassamos alguns traços significativos da morfossintaxe dos etnotextos e umha terceira dedicada a consideraçons léxico-semánticas.

A recolha de Saco parte de 34 pontos, dos quais ele mesmo nos explica que 18 som da província de Ourense, 4 de Ponte-Vedra, 4 de Lugo e 8 da Corunha. Contudo, nom fazemos a escolha ou valorizaçom do material lingüístico em funçom da zona de origem, a nom ser que por algum motivo seja especialmente significativo esse dado.
 

Ortografia e representaçom da oralidade

A primeira consideraçom que devemos fazer, tam evidente como em ocasions esquecida, é que a obra escrita de Saco pertence à etapa inicial do Rexurdimento literário. Os condicionantes para os autores desta altura som claros: partem de umha formaçom académica espanhola, desde a que tomam partido por umha cultura, por umha língua, em regressom imparável desde séculos atrás. Isto tem a sua manifestaçom mais gráfica no facto de o conjunto de escritores e intelectuais galeguistas desconhecerem por completo a existência de umha tradiçom literária anterior, ou em geral desses sete séculos de normalidade da cultura e língua galegas travados no século XV. Verifica-se, portanto, umha grave perda de memória colectiva, evidenciada mesmo nos vultos individualmente comprometidos com a língua da Galiza. De outra parte, é patente já o processo de hibridaçom entre o galego e o espanhol, até o ponto de surgirem dificuldades importantes para distinguir materiais culturais próprios e alheios. E, como conseqüência, a produçom cultural da época verá-se condicionada por esse desconhecimento da tradiçom e pola incapacidade de assimilar elementos alheios à própria cultura pola fraqueza desta e a crescente achega de aqueles.

A manifestaçom "visual" mais constatável do que dizemos é a escrita. Saco e Arce, como o grosso dos autores e autoras da época, partem do sistema gráfico que conhecem, o espanhol, para levarem ao papel o nosso idioma. O que costuma chamar-se opçom demótica ou popular nom deixa de ser um desafortunado eufemismo do que em rigor deve ser chamado opçom satelizadora do galego a respeito do dominante espanhol. O que no século XIX pode explicar-se e justificar-se em funçom do desconhecimento da própria história e da precariedade de um movimento incipiente, acabaria como bem sabemos tornando-se um lastro de que ainda hoje nom conseguimos libertar-nos.

Emprega Saco, portanto, o sistema gráfico espanhol, como ele próprio reconhece na sua gramática, por utilitarismo e para facilitar o acesso dos leitores. Assim, quando na sua gramática trata o assunto da representaçom gráfica da consoante palatal surda galega, depois de dizer que empregar jota, gê e xis seria muito complexo (2), reconhece que "ninguna creemos más a propósito que la x, ya porque es la letra castellana, cuyo sonido se imita más al nuestro, ya porque, según la autorizada opinión de la Academia (en las primeras ediciones de su Diccionario), tuvo aún en castellano antiguamente este mismo sonido, ya en fin, porque en los pocos escritos gallegos que existen es la letra más generalmente adoptada para este objeto" (3). Deixa nestas poucas linhas a nu os preconceitos que condicionavam os escritores da época e, infelizmente, nom poucos dos nossos dias: critério "pedagógico" de favorecer o aprendizado ao máximo, espanhol como ponto referencial na restauraçom do galego e desconsideraçom da história escrita anterior (neste caso justificada polo desconhecimento). Lembremos que a primeira divulgaçom editorial dos cancioneiros medievais se efectivou na obra de António de la Iglésia El idioma gallego em 1886. Um outro exemplo do que dizemos achamo-lo na mesma gramática de Saco na nota a rodapé da página 189, em que justifica a nom adopçom do - m final para a representaçom do correspondente fonema consonántico nasal: "No nos parece fundada la m que el P. Sarmiento emplea al fin de las sílabas, como bem, vim, sem, algumha, com poucos, por más que afirme emplear la ortografía usada en antiguos códices. Tal ortografía es más bien portuguesa que gallega" (4).

A dependência da língua do estado reconhecemo-la, portanto, no sistema de acentuaçom gráfica, no uso de bês, uvês, cês e zetas, nas grafias características hispanas -ll-, ñ-, na representaçom da velaridade nasal consonántica final (-n), nos sinais de interrogaçom e exclamaçom no começo da frase (opçom exclusiva do espanhol), no uso do ípsilo para representar a vogal i quando funciona como conjunçom, e em geral nas convençons gráficas desse idioma (Nom hachei a quen buscaba, p. 123; com uso do agá em funçom do verbo correspondente castelhano "hallar"; Unha xesta de barrer, p. 106). E a dependência indirecta acima comentada, na representaçom da consoante palatal surda galega, optando como umha parte importante dos autores da época polo diferencialismo do uso generalizado da grafia xis. Um diferencialismo sem mais sustento que a dependência do espanhol em negativo: dado que as grafias históricas tenhem umha pronúncia diferente em espanhol, cumpre procurar outra que evite que o leitor galego leia "à espanhola". Esta escolha deixa o galego à margem do uso unánime das grafias históricas comuns no conjunto das línguas románicas e germánicas até.

De resto, a escrita de Saco responde a umha vontade de reflectir com rigorosidade a fala popular, mas guardando umha relativa coerência interna, que se corresponde com a sua proposta gramatical, e que coincide em muitos pontos com a "proto-norma" em circulaçom na altura.

Um primeiro aspecto salientável é a representaçom dos encontros vocálicos átonos por meio do apóstrofo: Desd 'aquí t'estou mirando (p. 71); botam'outra, botam'outra (p. 156); E dixenll'o de curazón (p. 98); Nunca ch'estou mais contento c'agora c'os meus amigos (p. 134)

Também, como vimos no último exemplo, usa o apóstrofo para assinalar as contracçons da preposiçom mais o artigo ou de dous pronomes: Separarte d 'o sentido (p. 76); Eso xa ch'o teno feito (p. 81); Eu caseime c 'unha vella (p. 97). Excepto se o encontro for com a preposiçom em, pois daquela usa o traço em lugar do apóstrofo: Se algún erro che vai n-ela (p. 71); n-os ollinos d'unha nena (p.73).

Emprega também o traço para outras aglutinaçons: ti pirina, y-eu mazán (p. 143).

Dizíamos acima que a sua proposta tinha umha certa coerência interna, superior mesmo à de autores muito posteriores e alguns ainda bem recentes, seguramente pola sua sistematicidade filológica. Contudo, há exemplos de contradiçons, como a variável representaçom da aglutinaçom do verbo mais o pronome enclítico e de dous pronomes átonos. De maneira majoritária, opta por uni-los sem traço, mas em ocasions aparece o hífen. Numha mesma copla da página 102, por exemplo, figuram ambas as representaçons: Tráe-lo cada dia, Y-estás debendoo n-a tenda; Outros casos de uso de traço nesse contexto som: Ca vo-lo sabe tocar (p. 137); Aparta-lo, aparta-lo (p. 137); vamo-lo dipinicar (p. 115). Ou no resultado do encontro de dous ás átonos, que como vimos pode dar a (sube o gato â ola, na p. 324), mas também em ocasions á: Todá mar andei de ronda (p. 123).

Também usa o traço para representar a uniom da conjunçom copulativa palatalizada ante e ou o: Ti pirina, y-eu mazán (p. 143); Y-o corpo en Santo Ourente (p. 143). E o i epentético: Pon o pe na Y-auga crara (p. 142).

O ípsilo é empregue em geral para representar os glides palatais: Outes é mellor que Noya (p. 143); canta, rula, n-a gayola (p. 142), Que lle fagan unha saya (p.126).

Voltando ao uso do traço, este serve também para indicar a progressiva lexicalizaçom resultado da soma de dous ou mais vocábulos: Entradinas d'ani-novo (p. 99); Eres un leva-e-trai (p. 64).

Umha última referência ao traço leva-nos ao uso para à representaçom na escrita da aglutinaçom resultante do encontro de umha palavra acabada em -r ou -s com o artigo o(s), a(s). Este fenómeno próprio da oralidade é muito freqüente na Galiza (também noutros países de fala galega, começando polo próprio Portugal). A sua representaçom nom é sistemática, como também nom o é a sua realizaçom oral, dependendo da entoaçom, as pausas, etc. Esta circunstáncia fai com que sejam numerosos os exemplos da sua plasmaçom escrita: Que nom quer tocal-a gaita (p. 138); toda-las teno cerradas (p. 144); tamén sei bebe-lo viño (p. 153); Dio-la sabe y-eu a sinto (p. 80); Felice-los que se deitan (p. 99). E também abundem os casos em que se representam as formas plenas: Remediar o noso mal? (p. 143); Hase de casar a fame (p. 189); Que fxeron vir a auga (p. 156); Para lle botar a roda (p. 131).

Repare-se que, de acordo com a realidade oral da língua, o autor nom recolhe estas assimilaçons fonético-sintácticas de maneira sistemática, ou nom com o mesmo resultado: tod'os arsenales (p. 153)... E quando o fai, o fenómeno nom atinge apenas o verbo e determinadas preposiçons ou pronomes, mas qualquer nome: Felice-los que se deitan (p. 99). Enfim, o autor recolhe com fidelidade a realidade oral do artigo com a terminaçom precedente em -r, -s, que nom se corresponde com a suposta "fidelidade ao que o povo fala" que dim representar aqueles que teimam na sua representaçom gráfica ainda nos nossos dias.

Em relaçom directa com a presença escrita está a realidade oral que aquela representa. No atinente à fonética, a característica geral dos textos de Saco é a procura de fidelidade com o galego por ele recolhido, até onde isto for possível no momento de levá-lo à escrita. Assim, tenta reflectir as assimilaçons produto de encontros vocálicos de maneira abundante, mas nom sistemática. Já na Segunda copla da recolha encontramos:
 

Axudadem'a cantar, 
Nenas d'a mina aldea, 
Axudadem'a cantar, 
Qu'eu estou en terra allea (p. 53)


Em que plasma o resultado do encontro de um e com um a átonos, dando como resultado um a. A mesma assimilaçom ocorre em dúzias de exemplos: Que ninguén s'há d'enfadar (p. 53); canata, qu'eu ch'axudarei (p. 54); Qu'ande sempr'eu túa compaña (p. 65);...

Outros encontros vocálicos de carácter átono que achamos som:

e+u: mandoum'unha navalla (p. 67)
e+i: Agora qu'imos a elas (p. 53)
a+u: Axuntaron pr'on pandeiro (p. 185)
o+u: Sente com'unha presona (p.135)
a+o: Se fores ò prado (p. 189)
e+o: Faltall'o carapucho (p. 189)
a+a: Po-lo rabo da culler, sube o gato â ola (p. 324)


Para além das reduçons vocálicas puras, temos exemplos doutras próprias da oralidade como a resultante do encontro de nom+hai, em que pode perder-se a nasalidade velar, dando como resultado o que Saco leva ao papel: Que n'hai rosa que non muche (p. 65)

Outros fenómenos fonéticos característicos do galego-português recolhidos polo autor som:

Metáteses: Y-os solteiros quedan drento (p. 103); Sente com'unha presona (p. 135)

Harmonizaçons vocálicas: D'unha minina solteira (p. 71); Pigureira d'as ovellas (p. 135),... Neste ponto achamos também inestabilidade, até o ponto de coincidirem em ocasions o mesmo vocábulo na mesma copla na sua forma harmonizada e a etimológica: Para unha foliada, Para unha fuliadina (p. 142); ou em coplas diferentes: Non o puxeras ti, rola (p. 121); A rulina que viudou (p. 123).

O mesmo acontece com o vocalismo nos ditongos: Cando te pos a beilar, caramba, que bailas bem (p. 137).

Som todos estes exemplos de fidelidade com o idioma falado na altura, que nos fenómenos que estamos a repassar guarda estreita identidade com o falado nos nossos dias por falantes primários de galego, nomeadamente os de certa idade.

O i epentético ocorre em casos como: Pois pra min há-y-a d'aber (p. 134), e o e paragógico noutros como: En donde a fertuna estae (p. 67). Também nesse verso achamos a instabilidade vocálica átona pré-tonica, comum nos casos antes vistos sob a epígrafe de harmonizaçom, e também com o o, que neste caso passa para e. Esta instabilidade vocálica costuma classificar-se no diassistema galego-luso-brasileiro, como noutros da Románia, de vulgarismo. Também deste teor é a dissimilaçom que provoca a passagem de ano novo a ani-novo (p. 99).

Poderíamos continuar a descriçom de fenómenos fonéticos presentes nos ricos textos de Saco e Arce, como as síncopas (Pro con Xorxe eu casaria p. 74). Mesmo pôr em contraste as formas de umha e outra zona geográfica das estudadas, mas ficaremos apenas com um fenómeno cuja importáncia reclama o nosso interesse: trata-se da vontade, pola parte do pesquisador, de recolher o que costumamos chamar sesseio, marcando umha forma que, em condiçons sociolingüísticas de normalidade, deveria ser nom-marcada. Também na altura em que escreve Saco e Arce se dá esta circunstáncia, já que como a maioria dos autores do século XIX --e nem só-- emprega o esse para incidir nessa pronúncia, hipercaracterizando os falares que conservam as sibilantes autenticamente galegas. Assim, o autor emprega um esse mesmo quando se corresponde etimologicamente com um cê ou um zeta: co'a preguisa de s'erguer (p. 96); Teselán é merendeiro (p. 111); Cada ves que vou a Vigo (p. 153); E non seas preguiseiro (p. 112); San Bartolomé na prasa (p. 154), Salíume narís, narís ( p. 115); Almorsei en cas d 'o crego ( p. 111). Digna de mençom é a manutençom das sibilantes nom interdentalizadas em Chantada, recolhida no romance religioso intitulado A pasión, na página 219: Cada ves que Xudas tira, ou em Viana do Bolo: Eu teño un cansiño (p. 209)...

Contudo, a sua representaçom nom é sistemática, e na mesma copla podem aparecer as grafias cê ou zeta onde com certeza o informante pronunciasse a sibilante, em zonas ainda hoje sesseantes:

Bem lI'o da o parecer, 
dicen que mexa na cama, 
co'a preguisa de s'erguer (p. 96, Santiago) 
Azoutaron ó Balouro (p. 154, A Lama)


Os textos que comentamos reflectem portanto influências fonéticas espanholas que podemos presumir que agiam já na altura no galego-português da Galiza.

O de maior transcendência pola sua produtividade e por supor umha ruptura com a tradiçom galego-portuguesa em favor da confluência com o espanhol é o que acabamos de comentar: a passagem do fonema sibilante surdo para o interdental surdo do espanhol.

Embora nom seja este o lugar para aprofundar na questom, cumpre repararmos no facto de ser o interdental fonema característico do espanhol padrom, introduzido no galego até o ponto de levar à desapariçom o fonema sibilante autenticamente nosso. Nom sendo a sua recuperaçom questom de voluntarismo individual, sim deveríamos considerar esse fim dentro de umha planificaçom conducente à normalizaçom do nosso idioma que está por vir.
 

Mofossintaxe

Principiamos fazendo algumhas consideraçons sobre o verbo nas cantigas populares recolhidas por Saco. Como característica geral, destaca a presença de formas hoje banidas pola pressom do espanhol, ao lado doutras já assimiladas na altura. O primeiro que reclama a nossa atençom é a presença maciça do futuro do conjuntivo. Como se sabe, este tempo perdeu nos nossos dias qualquer produtividade em falantes primários, ficando apenas como resto em falantes de idade avançada, ante a decisom dos "especialistas" de dá-la por morta de vez. A literatura popular é a sua grande valedora, pois dá provas da sua freqüência de uso em etapas anteriores do processo de assimilaçom que a nossa língua padece. Mais umha vez, coloca-se-nos a questom de darmos por boa a depauperaçom do sistema galego a maos do hegemónico espanhol, ou reagirmos restaurando elementos tam caracterizadores do galego como o referido.

Como dizíamos, a presença do futuro do conjuntivo é sistemática nos textos recolhidos por Saco. Aliás, nom duvida em inclui-lo na sua gramática como mais umha forma do sistema verbal galego (5). Nom é a nossa intençom reproduzir todos os exemplos da colecçom de Saco, quanto umha pequena mostra representativa: Cantarei como pudere (p. 53); cante quen tiver amores (p. 54); Onde non for conocido (p. 55); Se mal dixeren de ti (p. 64); Daeill'o cando viñer (p. 78); mentras n-o mundo viver (p. 80); Se te casares, minina (p. 101); O que quixere bos mozos (p. 156); Sefores ó prado (p. 189); Quen tiver remoiño na testa, non irá comigo â festa (p. 326);... A lista, como dizíamos, é muito extensa, mas com estes exemplos é suficiente para dar ideia da produtividade que esta forma deveu ter nom há tanto tempo.

Continuando com a caracterizaçom do verbo, pode-se salientar a manutençom da alternáncia vocálica no radical de alguns verbos que hoje costumam ser acomodados à conjugaçom hispana --sem alternáncia-- nos falantes primários: O que o meu corazón sente (p. 71); Sente com'unha presona (p. 135); 0 que d 'alleo se veste po-las orellas se espe ( p. 321 ); Onde moitos cospen, lama fan ( p. 320); Pergúntalle a Mateu, que mente coma eu (p. 323); Dorme moitas noites fora (p. 95). Ao lado, isso sim, de exemplos já interferidos: Si Pepe che pide lume (p. 195); sube o gato a ola, na p. 324.

Nom menos chamativa resulta a presença de formas da segunda conjugaçom que a pressom do modelo dominante acomodou à terceira: Mentras no mundo viver (p. 80); ou en fase de transiçom: Escrebirach'unha carta (p. 70).

Em geral, percebemos umha maior conservaçom de traços galegos na presença dos verbos, como a pertença à conjugaçom que corresponde: E non se derrete (p. 215).

Ainda referido ao verbo, salientamos a presença, na mesma copla, das desinências da 2ª pessoa do perfeito sem esse e com esse:

Olvidácheme, olvideite, 
Boteich'a terra n-os ollos; 
O día que m'olvidaches 
Xa ch'eu tina amores novos.
Consoante com o carácter vulgar do esse acrescentado à terminaçom histórico-etimológica, provavelmente por influência da terminaçom em esse de outras formas nessa ou outras pessoas (olvidastes, olvidas,...).

A forma de 3ª pessoa do presente do indicativo de querer apresenta-se habitualmente sem o -e final hoje em dia majoritário: Y-o bailar querse aprender (p. 54); Que verde non quer arder (p. 98);...

Curiosamente, nom abundam as mostras do uso pessoal do infinitivo: Pra rezares o rosario (p. 124).

Nos verbos em -aer, -oer, -air, que na fala apresentam dupla soluçom para a 3a pessoa do singular do presente do indicativo: trae-trai; doe-dói; sae-sai; destacamos a significativa presença da segunda variante de cada par: Eres un leva-e-trai (p. 64); O tempo trai todo (p. 322); ¡ Ai que me doi a cabeza!, Ai que me doi a moleira (p. 154); roi n-el cando quixer (p. 107); Cando o sol sai, sai para todos (p. 310), N-a Sexta sai, Sábado chega (p. 186). No último exemplo, temos na mesma copla a forma deturpada sale: N-o luns sale, martes chega... Na própria Gramática Gallega, estas som as formas prescritas polo autor (6).

Outras ocorrências verbais de interesse som o verbo andar como regular: Todá mar andei de ronda (p. 123) o verbo ouvir face ao mais estendido por coincidir com o espanhol oir: Quen ouviu cantar o cuco (p. 121); Ouvín cantar e chorei (p. 123). Mesmo aparece registada a forma do pretérito etimológica fez, do verbo fazer, em lugar da moderna figem, num refrám: Quen fez Lugo, fez a Astorga e ponte de Cigarrosa, e levou unha pedra n-o capelo, con que fez a Coromatelo (p. 345). E a forma também comum com o padrom português vaa, do presente de conjuntivo do verbo ir, que Saco inclui nos paradigmas verbais da sua gramática (7): O mao vaa e veña, e o boo nunca se perda (p. 320). Citamos por último a presença das raízes tiv-, estiv- face à generalizaçom actual de tuv- estuv- influídos polas raízes dos verbos tener e estar espanhóis: Cante quen tiver amores (p. 54); Si non estivera rouca (p. 54); nunca ch'as tiven mellores (p. 95);...

Temos vários casos de uso da perífrase verbo+a+infinitivo com o valor similar ao gerúndio: a cantar ganei cartos (p. 95); a chorar mollei un pano (p. 123). Ao lado doutras que transparecem a influência do espanhol: Que me quero ir a deitar (p. 102), Vou a tocar - co'a miña gaitiña (p. 194). Também salientamos como construçons galegas hoje em desuso outras como haver+de com valor semántico de obrigatoriedade: Mentras miña vicina é tola, ¿ para qué hai de comprar ola? (p. 332); e interpolaçons pronominais várias: O señor que m'a non deu (p. 55); se te non levan de noite (p. 80); Crego, ¿por qué non cantas? Crego, porque che non pagan (p. 311); ¿ Canto hai que che non vin? (p. 142).

Se bem em conjunto parece claro o melhor estado geral do corpus lingüístico, nom deixam de ocorrer claros espanholismos já assentados ou em curso de fazê-lo, como a confusom entre pretérito mais-que-perfeito do indicativo com pretérito perfeito do conjuntivo: Si non estivera rouca habíate d'axudar (p. 54), ou formas verbais como sea (p. 71), arrepentida (p. 124), sirve (p. 66), rindes (p. 209), Válgame Dio-lo que canta (p. 144), mas Vállate Dios, - aquela qu'é vella, (p. 197), e Válache Dios - meu caldino de uvas (p. 198),... Contudo, o certo é que o sistema verbal conserva um grau de deturpaçom ainda baixo.

Na morfologia nominal, achamos também elementos de interesse, alguns dos quais passamos a comentar com brevidade. Temos algum exemplo do sufixo -imento como derivado de um verbo da segunda conjugaçom: Viva o meu atrevimento (p. 55). Na página 318 aparece recolhido o substantivo servizo: Non hai tal feitizo como o bo servizo. Na página 72 recolhe-se a forma embarcazón, com o sufixo nominal genuinamente galego. Vemos nestes exemplos umha prova de que certas inovaçons ditas "por via culta"(8) nom tenhem o latim como fonte, mas o inevitável espanhol, que conseguiu apagar da fala e da memória importantes sinais da identidade lingüística galega, segundo se comprova noutras terminaçons já deturpados: precio (p. 97) e gracia (p. 96). Escolhemos estes exemplos porque, curiosamente, no primeiro deles se reconheceu recentemente a galeguidade da forma preço, enquanto o vocábulo gracia nom tivo a mesma sorte apesar de estar viva a terminaçom galega na expressom Graças a Dios (recolhida por mim nas Granhas do Sor, Concelho de Manhom, em pessoas velhas e novas).

Quanto às terminaçons -au, -eu (pau, nas páginas 116, 118,..., Mateu, na 323, romeu, na 69,...), vemos a instabilidade do u que ocupa a margem silábica, por vezes realizado como -o: pao, na página 339, Nicolao (p. 339), veo (p. 111), ceo (p. 116), chapeo (p. 116), mao (p. 309),...

Umha outra instabilidade dá-se no ditongo -oi-/-ui, como demonstra a presença de remoíño (p. 326) e muíno (p. 65).

Salienta também a presença de certos grupos consonánticos habitualmente adaptados à forma castelhana: branco (pp. 80, 120), praza (p. 330), soprar (p. 322), prato (p. 90), prata (pp. 78, 110),...

Citamos alguns casos que chamárom a nossa atençom como o relativo ao género: temos o sangre na página 219, o dote na p. 189, a ponte na p. 195, por pôr três exemplos em que costumam apresentar-se interferências.

Na sufixaçom derivada dos -ATE, -TATE, -TUTE latinos, registam-se soluçons contraditórias, segundo o grau de conservaçom das propriamente galegas. Assim, recolhe-se a forma abade (p. 157), salude (p. 95), mas libertá (p. 110), virtú (p. 126), e cidá na página 134 face a ciudade na p. 151, o qual dá mostras de um processo dinámico de substituiçom lingüística, hoje praticamente consumado nos falantes primários, mas felizmente nom assumido por nengumha das opçons normalizadoras do corpus.

Nas terminaçons resultado da evoluçom das latinas -ANUM, -ANAM, -ANOS, -ANAS, os textos recolhem majoritariamente as soluçons desnasalizadas acabadas em -ao / -au, devido à origem geográfica dos mesmos. Apenas localizamos algumha forma deturpada como tecelana, recolhida numha copla em Arçua (p. 107), que contrasta com a correcta teselán recolhida em Noia (p. 111).

Verifica-se também a forma nom apocopada ante o nome dos santos que começam por vogal: Santo Antón (p. 209), Y-o corpo en Santo Ourente (p. 143), o mesmo que no uso adjacente de tanto: ¿ Quén ch'aprendeu tanto bén? (p. 128).

Ao lado do uso interferido da preposiçom a perante objecto directo pessoal: mala murriña mate ós homes (p. 95), nom faltam exemplos da estrutura legitimamente galega: Xa no mundo - non teño ninguén (p. 196), Que vayas chamar un cura (p. 230). Igualmente encontramos exemplos da estrutura originária de cláusulas sem pronome de O. I. de carácter pleonástico: O cego da pan à moza, A moza da pan ó can (p. 195), que contrasta com a actual tendência a introduzir o pronome lle.

Um outro traço sintáctico distintivo do nosso idioma fica patente no uso da preposiçom em mais o artigo diante do nome de dia da semana, ou a ausência de qualquer determinante nessa mesma posiçom: N-a sexta sai, sábado chega (p. 186).

Majoritariamente ocorre a conjunçom si, mas ocasionalmente figura a galega se (Se fores a misa d 'alba, p. 116, Se outro paxaro reina, p. 94,...). No entanto, nom encontramos a preposiçom genuína sem, substituída por sin, ainda que na Gramática Gallega apresenta ambas as formas (9). Outro tanto pode dizer-se de nem, substituída por nin após a hibridaçom com ni, ajudada da tendência a fechar as vogais médias em contexto átono. Ou outros vocábulos amiúde espanholizados como donde, aunque, anque,... Temos exemplos do uso do quantificador ninguén (pp. 64, 66, 67, 196,...), embora também apareça nadia: nadia corre tras d'a besta com'o dono (p. 317). Ocorre nengunha (p. 64) ao lado de ningunha, na mesma página; a conjunçom adversativa mais (p. 194), face à já majoritária pero, mesmo o uso de tamén non em lugar de tampouco: Eu tamén non che sei pouca (p. 107), uso este generalizado no galego de Portugal, ao contrário do que acontece no galego do Brasil; o advérbio só (p. 135) junto do castelhanizado soilo (p. 81); bem como do pronome tu (p. 85), ao lado do analógico ti, que o autor pretende explicar pola proximidade de Entrimo com Portugal.

A listagem de construçons características do galego seria também muito extensa, pois também neste aspecto a literatura popular é fonte inesgotável de recursos. Podemos citar a modo de exemplo o uso da preposiçom de como introdutora do complemento agente da cláusula pássiva, em lugar da mais usual por: Toda trilha-da d 'os ratos (p. 88); ou a conjunçom senom como sinónimo de mais do que, a nom ser: Nom conta senon mentiras (p. 107), Que non tem senon guedellas (p. 107).

Nem comentamos outros aspectos como a colocaçom do pronome átono na frase ou os usos de pronomes te-che, o-lhe, porque o seu uso reflecte umha total normalidade, livre das interferências que hoje abafam a língua dos neofalantes e mesmo de nom poucos escritores e escritoras "cultos".
 

Léxico-semántica

Sendo o léxico a camada exterior do idioma, a mais vulnerável às influências alheias, é explicável a presença de espanholismos como os que aparecem nos textos. Contudo, se compararmos com a situaçom actual, veremos como grande parte do vocabulário ainda vivo quando se recolhêrom está hoje perdido, algum condenado à categoria de "lusismo" desde a ideologia lingüística dominante, e outro em processo de recuperaçom por via culta.

Chama a nossa atençom, por exemplo, a vigência do topónimo Ourense, na sua forma legítima (p. 156), ao lado da versom deturpada do nome da vila arousana (Fostes a Villagarcia, p. 153). Ou o gentílico por excelência do nosso país:

Castellanos de Castilla, 
Orellas de burro branco, 
Que non dades ós galegos 
Unha hora de descanso. (p. 120)
Ou nas páginas 101: Vámonos indo galegos, Galegos vámonos indo; e 158: Palmela canta galego. Noutras coplas figura já a forma espanholizada que acabou por imporse na fala popular de maneira praticamente total: Vivan as mozas gallegas (p. 183). Como comentário a este vocábulo, Saco e Arce sublinha o facto de que em Entrimo se di "galego" e nom "gallego", "a semejanza del portugués".

Nom foi casual a introduçom de barbarismos em casos como os comentados e outros topónimos relevantes --começando polo próprio nome do país-- ao terem maior presença nos ámbitos de cultura formal, desde os que se irradiárom para os usos orais, o que explica a desapariçom dos correspondentes galegos. O mesmo acontece com o nome de deus, que a Igreja nom deveu demorar muito em converter num mais "evangélico" Dios, sistemático na recolha que comentamos, ou outras expressons lexicalizadas com a forma espanhola: mi madre (p. 230), ou como a despedida adiós (p. 230), ou o tratamento que precede o nome próprio de mulher: Dona Albela (p. 229). Se em geral se concorda na restauraçom destes barbarismos, devém injustificável a reivindicaçom do topónimo imposto Galicia em lugar de também nesse caso recuperar o originário Galiza.

Nom acontece assim com outros topónimos menores que, via de regra, conservam a sua forma galega, por ser comum essa manutençom na fala popular, embora saibamos que desde as instituiçons se tentou, em ocasions com êxito, a deturpaçom dos mesmos.

E se a deformaçom afectou à toponímia, nom menos se viu atingida a fraseologia, nomeadamente fórmulas de tratamento formal como podem ser o pronome de cortesia, as saudaçons, cumprimentos e outros formulismos em que o espanhol se instalou com especial sucesso. Por isso chamou a nossa atençom a presença nos textos recolhidos por Saco deste tipo de fórmulas ainda sem adulterar. Referimonos ao uso de vousé, com a sibilante originária, numha cantiga recolhida em Viana do Bolo: Eu teno un casino, E vousé ten seis. (p. 209). Ou a forma parabén, em lugar da híbrida (e)noraboa ou directamente a estrangeira enhorabuena. Encontramo-la na página 127: Todos me din que me caso, xa me dan o parabén (p. 127). Num refrám da página 339, encontramos os antropónimos Nicolao: Dia de San Nicolao, está a neve de pao en pao, ou si non, está n-o chao; Mateu (p. 323); e Xorxe (p. 74). Na 209, aparece o nome Natal, para nomear a época do ano que hoje costuma chamar-se popularmente Navidad, e que os normativizadores evitam usando Nadal, no intuito de guardar as distáncias com o português.

Neste grupo heterogéneo mas com os pontos em comum antes citados, entram também os dias da semana. É evidente a penetraçom da nomenclatura espanhola, até o ponto de ter-se perdido na actualidade a denominaçom galega, tanto na série cristá como na pagá, que raramente se podem ouvir de boca de um galegofalante nativo primário. Mais umha vez, a literatura popular dá fé da vigência das formas galegas em estádios imediatamente anteriores da língua. Assim, temos significativas mostras das denominaçons tipo feira:

Hoxe é lus, maná e martes, 
Coarta feira logo ven (p. 126); 
Hoxe é luns, manán é martes, 
Coarta feira logo ven (p. 160);
Meu marido vai na leña, 
N-o luns sale, martes chega, 
Cuarta corta; Quinta a emberga, 
N-a Sexta sai, e Sábado chega, 
Ahí ven meu maridiño co'a leña (p. 186).
Deveria fazer-nos pensar o facto de os normativizadores oficiais optarem polas formas pagás, mais próximas do espanhol, apesar de serem minoritárias a respeito das cristás na história da língua, e na actualidade ambas banidas do uso oral espontáneo (10). Nós interpretamo-lo como mais um exemplo de confusom interessada entre "possibilismo pedagógico" e dependência manifesta.

Entrando já no ámbito do nome comum, a riqueza geral do léxico patrimonial fai-nos repassar apenas alguns casos que posteriormente cedêrom ante a forma importada de jeito majoritário. Assim temos: avó (p. 68), avoa (p. 230), vidro (p. 60, 80,...), manteiga (p. 199), cabeliños (p. 129,161), sortella (p. 110), doente (=enfermo, na página 316), pescada (p. 199), piñeiro (p. 94), castiñeiro (p. 64), cru (p. 130), fogo (p. 115), culleres (p. 104), curto (p. 94), laranxa (p. 156), igrexa (pp. 157, 323), eirexina (p. 215), cacho (=ácio) nas páginas 104 e 163, cea (p. 124), saída (p. 134), saya de picote (p. 155), grou (p. 345),... E outras que hoje ficam fora dos dicionários normativos ou acantoadas ante outras "variantes", por serem suspeitas do delito de "lusismo": preto (=negro), na página 115; beixo (p. 236); calzas (p. 137), mao (antónimo de bom) nas páginas 305, 306, 309,... e o seu feminino maa (p. 306); raparigas (p. 139), ouvidos (p. 121), pergunta (p. 141),...

Nom sendo nomes, mas verbos, chama a nossa atençom a presença de formas como: asañar (p. 183), gañar (p. 331), tirar (como sinónimo de sacar, na página 147), vingar (p. 93), pentear (p.231), enganar (p. 185), desenganar (p. 66), pelexar (p. 201), Hachar (pp. 325, 123), urtigar (p. 139), gotejar (p. 323), asobiar (p. 120), alugar (pp. 233, 161), largar (sinónimo de soltar, na página 193),...

De novo, reclamam a nossa atençom casos contraditórios, como o par moer-moler: O muino que moeu (p. 111), mas Há de ser molido a palos (p. 118), mau-malo, má-mala, ou ganhar-ganar, e outros exemplos que patenteiam a concorrên-cia das formas autóctones e as alóctones, que em muitos casos acabou já com a implantaçom da forma alheia.

Nas coplas recolhidas directamente em espanhol por Saco salienta a presença de galeguismos lexicais como: arborito (p. 178), cantarela (p. 179), tirar (com o significado que em espanhol exprimiria o verbo quitar, p. 175), lende (p. 170), pudem, do verbo poder (p. 171), recender (p. 166), caraveles (p. 165), etc.

Poderíamos também fazer umha relaçom de léxico introduzido desde o castelhano nas cantigas e refráns galegas desta recolha (vuelo, palomas, novia, mala, rentas, pago, desarreglado, largo --por longo-- , amistá, testigo, ventana,...) mas nom acrescentaríamos grande cousa ao que neste estudo procuramos, polo que é suficiente com deixarmos constáncia de que, com efeito, também no plano léxico-semántico a pressom do espanhol se fai sentir.

Também nom é o nosso objectivo comparar os diferentes "galegos" que se nos apresentam, com a variedade e riqueza lexical que implica (landre, esbagoar, rifar, garamelo, muchar, volpe,...), mas nom por isso deixamos de assinalar mais umha vez a pertinência da inclusom da literatura popular entre as fontes de estudo dialectológico.

O estudo da fraseologia que se apresenta nas cantigas, refráns, romances e adivinhas que comentamos, daria para um ensaio bem abrangente da cultura deste povo, e no atinente à língua constitui também um jazigo de grande valor. Conformaremo-nos, de novo, com bosquejar alguns traços que chamárom a nossa atençom. Umha copla da página 93 recolhe a expressom vai-te embora, supostamente só portuguesa, mas neste caso recolhida pertinho de Ponte-Vedra:

Moza qu'estás n-a xinela, 
¿Ti queres casar comigo? 
--Galleguino, vaite embora, 
Qu'eu xa che teño marido.
Nom resistimos a tentaçom de verificar a persistência na Galiza actual de alguns refráns e ditados populares recolhidos por Saco na Galiza do século XIX. Com efeito, temos comprovado a existência de diversas variantes na bagagem cultural de galegos e galegas dos nossos dias. Ponhamos alguns exemplos:

Na página 316, transcreve-se umha burla engraçada dedicada à preguiça: Maruxina ¿queres pan ?--Si señora, si mo dan.--Pos vai buscar o coitelo.--Non, señora, non-o quero. Umha variante deste ditado está viva na paróquia cujo galego melhor conheço, nas Granhas do Sor. Ali dim: Preguicinha, queres pam? Si senhora, se mo dam. Éh!, pois vai polo cuitelo. Ai senhora, nom Iho quero.

Na página 331, temos outra irónica sentença: Gracias a Dios, que cocemos sete petadas, e nove debemos. Nas Granhas, hoje (em 1999) di-se: Graças a Dios minha mai que cozemos quatro bolinhos e cinco devemos.

Na página 330, aparece o refrám: Xesús, María e Xosé, canto mais imos, pior é. Na paróquia de Manhom referida, o ditado é: Guesus, Maria e Gosé, quanto mais vai, pior é.

Um outro exemplo. Recolhe Saco a sentença: Unha sebe tres anos, tres sebes un can, tres cás un cabalo, tres cabalos un home. Nas Granhas do Sor existe umha versom mais "completa": Sebe de lenha, três anos; três sebes, um cam; três cans, um cabalo; três cabalos, um home; três homes, um corvo.

E um último exemplo. Trata-se de umha cançom infantil, que Saco e Arce encontrou também numha recolha de Murguia e na tradiçom popular portuguesa. Apesar de dedicar o seu esforço intelectual e erudito a compilar esta Literatura Popular de Galicia, nom perde ocasiom para mostrar os seus preconceitos com a cultura do povo, qualificando-a de frívola e falta de profundidade e grandeza por tratar temas como o desta cantiga, que figura na p. 207:
 

Pico, pico, mazarico,
¿Quén che deu tan largo bico? 
Doum'o Dios e San Francisco 
Para picar n-os carballos 
Entre polas e ramallos. 
E piquei e repiquei, 
tres milliños atopei, 
E levei-n-os ó muino; 
Y-o muino a moer 
Y-os ratinos a comer. 
Agarrei un po-lo rabo, 
E levei-n-o ó mercado.
--¿ Cánto me dades, señores, 
Por iste porco cebado? 
--Cen reás com un cabalo 
E un can desorellado. 
Fun a cas d'a mina tia, 
Doume unha cunca de leite 
Co'a culleriña partida. 
Chameille torta e retorta, 
Deume co'a tranca n-a porta, 
E fun por un caminiño, 
Y-encontrei unha cabra morta, 
E dinlle un puntapé, 
E díxome bee.
A versom granhesa difere um bocado da anterior, ourensana:
 
Ergue o bico, maçarico; 
quem che deu tam grande bico. 
Deu-mo Dios e Sam Francisco, 
p'ra picar no teu muinho. 
E piquei e repiquei, 
graos de milho encontrei; 
e botei-nos a moer
e os ratos a comer; 
agarrei um polo rabo, 
e levei-no ao mercado. 
Quanto me dam por 
este porco cevado? 
Umha mula corredora 
e um galo galinheiro 
p'ra que che galee as tuas galinhas...
Enfim, todos e todas poderíamos acrescentar mais cantigas ou refráns ainda vivos e similares ou iguais aos recolhidos no século XIX por Saco. A literatura popular continua a oferecer um manancial lingüístico-etnográfico-literário em grande medida por explorar.
 

Conclusons

Este pequeno percurso pola língua de umha obra representativa da literatura popular do século XIX levou-nos, durante o tempo de leitura e de encontro com formas lingüísticas como as comentadas, a concluir a maior riqueza da língua se comparada com a actual. Este recuo permanente atinge nom apenas esta fase da história da língua, mas o continuum temporal que vai do século XV ao XXI em que estamos praticamente imersos, com a infeliz novidade que supom nos nossos dias a evidente ruptura da transmissom natural da língua e as implicaçons que tal facto terá --já está tendo-- na aceleraçom do processo de hibridaçom que sofre a nossa língua. Com efeito, estes séculos nom só suponhem a reduçom funcional do galego, senom que som também a história de um processo de desnaturalizaçom cada vez mais notório e hoje alarmante. A história da língua, fundamental na hora de propormos um modelo digno e consoante com a sua autêntica personalidade, é esquecida ou infravalorizada por sectores que sustentam importantes quotas de responsabilidade em matéria de planificaçom lingüística.

Umha outra conclusom da interessante leitura do trabalho de Saco é o mediatizada que está a mentalidade dos autores da época pola presença dominante do espanhol e polo fundo desconhecimento da língua e cultura galegas como entidades plenas e autónomas relativamente à língua e à cultura do Estado. Daí se derivam valorizaçons subjectivas e amiúde erradas sobre fenómenos lingüísticos, como a atribuiçom ao carácter "suave" do povo galego de determinados fenómenos fonéticos, ou a influência da proximidade portuguesa na presença de alguns fenómenos comuns, o rechaço implícito a soluçons comuns com o galego que florescera do outro lado do Minho, ou mesmo o uso de parámetros lingüísticos espanhóis para analisar e prescrever pautas na incipiente padronizaçom do galego.

É sob esta perspectiva que há de ser avaliada a achega de Saco e Arce à criaçom de um padrom literário galego que, contudo, representa um grau de autenticidade e elaboraçom superior ao que transparece a língua doutros autores muito posteriores, quer no relativo à pureza quanto à coerência interna da proposta representada pola sua Gramática Gallega. Sem aspirar ainda a alcançar um galego supradialectal(11) e ligado com as outras formas do diassistema galego no mundo, a origem e o teor popular da temática tratada evitou ao gramático procurar soluçom a campos lingüísticos que aproximassem o galego mais da modernidade, nomeadamente no que di respeito aos campos lexicais, os neologismos ou a adaptaçom dos cultismos. Esta circunstáncia deixou a proposta gramatical e literária de Saco no plano popular donde recolheu o material lingüístico para, isso sim, reflecti-lo nos seus estudos com o máximo de dignidade e cuidado, o que nom pode dizer-se de todos os escritores do seu tempo.
 
 


Notas

(1)Literatura Popular de Galicia, Deputaçom Provincial de Ourense, 1986.
(2) Saco e Arce, Gramática Gallega. Segunda ediçom, Gráficas Tanco (Ourense, 1967: 186). 
(3)Ibid., p. 187.
(4)Ibid., p. 189.
(5) Ibid., p. 73.
(6) Ibid., pp. 91-93. 
(7) Ibid., p. 95.
(8) Confronte-se ILG-RAG, Normas ortográficas e morfolóxicas do idioma galego, Vigo (1995), pp. 56, 57: e Comissom Lingüística da AGAL Estudo crítico das normas ortográficas e morfolóxicas do idioma galego, Corunha (1989), pp. 86, 87.
(9) Saco e Arce, Gramática Gallega, Segunda ediçom, Gráficas Tanco (Ourense, 1967: 114).
(10) J. A. SOUTO CABO, "Do luns à sexta-feira. Contribuiçom ao estudo dos dias da semana na história e na actualidade", Actas do IV Congresso lnternacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza. AGAL. Corunha, 1994, págs. 203-220).
(11) Sobre as fases do processo de formaçom do padrom literário galego na época contemporánea, vid. R. CARVALHO CALERO: "A constituiçom do galego como língua escrita" in Problemas da língua galega, Sá da Costa. Lisboa, 1981.